Oiço o gritar do meu pai, e consigo sentir os batimentos de aflição da minha mãe. Por uma vez mais, o meu pai está alcoolizado. Nas discussões e brigas familiares os adultos tornam-se crianças, e as crianças sofrem como adultos. E eu, uma criança frágil e sensível que vive num ambiente caótico que me marcará para toda a vida, sinto o terror a invadir-me como as ultimas vezes, já sei o que vai acontecer e sinto o gemer das dores da minha mãe. Estava marcada não apenas psicologicamente mas fisicamente. O meu pai tinha a magoado, e tudo devido ao álcool.
A minha mãe levará a noite inteira de lágrimas no rosto. Na manhã seguinte, ela desculpava-o, pois sabia que ele não estava em si.
Após alguns meses, a tortura continuava, e a minha mãe se cansara. Pegou nas suas coisas e levou-me consigo sem ter alguma escolha. Abandonamos o meu pai, sem olhar uma única vez pelo retrovisor.
Anos e anos correram, e a minha mágoa e raiva aumentava cada dia. Raiva de nunca poder tido um pai quando o necessitava, raiva de não compartilhar com ele felicidades e tristezas.
Para esquecer comecei a beber. Cada vez mais e mais, até que me tornei um alcoólico tal como meu pai. Grande erro. Estava derrotado perante o vicio, sem mais nenhuma expectativa de vida. Como sair daquele erro? À medida que me afundava, não ia só. Levava a minha mãe atrás. Estava a sofrer o mesmo terror novamente, e eu ainda era apenas um adolescente.
Sabendo o erro que cometia, acreditei na minha própria esperança. E na verdade houve, com força e vontade acabei por encontrar a luz ao fundo do túnel.
